Assisti esses dias o filme "Bruna Surfistinha" (2011). Confesso que não me senti incentivado a ir ao cinema e pagar para assistí-lo, já que ouvia de algumas pessoas (de certa confiança) que o filme não era bom e não valeria a pena gastar dinheiro para ver a Deborah Secco pelada.Em casa, de graça, na tv a cabo, resolvi assistir. Nada tinha para fazer e comecei assistindo o filme.
Inicialmente, os atores não são lá essas coisas. Exceto a Deborah Secco que consegue conservar uma bagagem de "Confissões de Adolescente" (série para o público adolescente, de 1994) e que envolve o espectador para continuar a assistir o filme. Logo de início, quando damos de cara com Drica Moraes interpretando a cafetina de putas de baixo nível em SP, o nível do filme automaticamente sobe.
Um parênteses à parte: Drica Moraes é uma atriz tão excepcional que ao mesmo tempo em que a assisti na novela Guerra dos Sexos no dia anterior e no filme Bruna Surfistinha no dia seguinte, nota-se a capacidade e versatilidade dessa atriz que deveria ser considerada patrimônio cultural nacional, tal qual Marília Pêra e Fernanda Montenegro.
Voltando ao filme. Apesar da proposta do filme ser uma autobiografia de Bruna Surfistinha (ou Raquel Pacheco, nome real da personagem principal), acho que ele consegue ir um pouco além: expõe a situação precária da prostituição em grandes cidades e, com certa discrição, a diferença entre os mercados de baixo e alto nível da prostituição nas grandes metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro. E também a possibilidade de ganhos maiores em mercados de mais alto nível.
Um ponto bastante interessante é que Deborah Secco vai conseguindo mudar e construir a imagem de Bruna conforme o tempo passa (e, tecnicamente, a idade da personagem) vai aumentando. O jeito ainda moleque e ao mesmo tempo provocante de Deborah fez dela a atriz ideal para o papel, fora o fato de não haver muito problema com nudez e nem poses sexuais, das mais diversas.
Infelizmente o filme não tem uma trilha sonora e nem uma química que você possa dizer: "nossa, essa música coincide com o personagem ou a cena!!" e nem uma fotografia que você possa apreciar melhor o jogo de luzes e ângulos.
O que eu acho muito interessante e marcante no filme, é a narração e a colocação de que a vida da prostituição é intensa, curta e marcada. A própria colocação da personagem ao final do filme, questionando a existência do alter-ego (?), Bruna Surfistinha poderia não ter existido. Nesse momento acho que o filme consegue provocar (ainda que modestamente) o espectador para uma reflexão do caminho adotado por cada um de nós (secundariamente) e a formação e conclusão final de Bruna (ou Raquel) afirmando que para que ela se encontrasse na vida e encontrasse seu espaço-tempo, a existência e criação de Bruna fez-se necessária. Outro ponto que é legal de perceber, entretanto, o filme não deixa isso muito evidente e deixa a cargo do espectador, é: assim que ela começa a cheirar cocaína ao trabalhar para um mercado de mais alto nível (até então ela recusava, mesmo no meretrício de mais baixo nível), a personagem de Deborah começa uma lenta e logo em seguida rápida e derradeira decadência. Fica a dúvida: Bruna acorda para uma nova realidade porque Gabi saiu de sua vida e, conseqüentemente, o alicerce administrativo e laço de amizade são perdidos; ou pelo simples fato dela ter começado a cheirar pó? Ou até mesmo os dois?
No mais, como todo filme, principalmente os brasileiros, daqui a alguns anos ele servirá como um belo retrato de uma realidade que talvez não estejamos mais vivenciando-a, com a alteração da paisagem urbana ou alguma outra mudança louca que venha ocorrer nas nossas vidas e cidades.
Se você não gostou do filme, e achou que foi só mais um filmezinho pipoca, bom, não tenho muito como contra-argumentar, até porque reconheço que o filme não é lá essas coisas. Mas que é um bom retrato da prostituição, acho que nesse ponto ele é bem interessante (e romântico até).
Se ainda sim você não gostou do filme, que este longa conte como um registro de um tempo que passou (meados dos anos 2000) e a nossa sociedade retratada, ainda que de forma bem pincelada e longínqua.
Forte abraço!
;)
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