É com esse título, nem um pouco ambíguo (e também nada vulgar...) que o filme "E aí, Comeu", de 2012, sob direção de Felipe Joffily, ganha cara e, para os mais exigentes, um ponto negativo.
Protagonizado por Bruno Mazzeo, Marcos Palmeira e Emilio Orciollo Neto, conta ainda com a participação de Dira Paes contracenando com Palmeira e Seu Jorge dando pitada especial (e bota especial nisso) de humor à trama.
Aparentemente o filme tem por objetivo ser uma comédia. Ou drama? Fica difícil conseguir definir isso durante o filme e até o final, a dúvida permanece. Impossível tentar dizer que os dois temas estão "casados" neste filme, porque isso é debochar com a capacidade interpretativa do espectador. E nem para tentar ser um ou outro, ou seja, comédia ou drama.
Os personagens não encantam.
Bruno Mazzeo, como Fernando, não consegue deixar de ser Bruno Mazzeo. Humorista de talento, com um DNA calibrado para a comédia. Fez ótimos trabalhos como no seriado Cilada, com início em 2005. Nele, Bruno consegue fazer o que talvez ele consiga ter feito de melhor até agora no humor, como ator: diversificar papéis e personagens num curto espaço de tempo, dando traços e jeitos diferentes a cada um deles. Mas fora do seriado, parece que o filme Cilada.com(2011) fica ecoando na cabeça da gente ao assistir o ator em outros trabalhos.
Marcos Palmeira, na pele de Honório, cascudo da tv brasileira e muitas novelas em seu histórico, consegue desempenhar bem o papel proposto: o estresse do dia a dia do trabalho e o cuidado que tem que ter no cuidado com as três filhas, além de uma mulher e um casamento estagnado e desgastado pela rotina. Claro que contracenando com Dira Paes, fica mais fácil e entendível para o espectador. De fato, entre eles dois, rola uma química que poderia ser aproveitado em roteiros melhores.
Emilio Orciollo Neto, interpretando Afosinho, até consegue encantar com a sua cara de 'coitadinho' e uma necessidade de sexo. Mas o personagem resume-se a isso: só quer sexo e nada além disso. Apaixona-a por uma prostituta e ele acredita que será o príncipe encantado a livrá-la da vida do meretrício. Essa idéia já tá batida... Um cara com o poder que o personagem tem de conquistar as mulheres, conforme apontado pelo filme, fica perdidamente apaixonado por uma prostituta? Poxa... Podiam ter colocado que ele procura um novo caminho ou uma mulher com quem quisesse se envolver mais intensamente... Mas enfim. Tá no roteiro.
Os encontros dos personagens só ocorrem no bar, onde só falam putaria. Ok, falar putaria é legal. Mas falar putaria alto a ponto de incomodar as mulheres da mesa ao lado? Demais né? Uma vez até vai, mas espera-se um mínimo de educação da pessoa. E cá entre nós: o bar é SEMPRE freqüentado pelas mesmas pessoas? As mesmas personagens nas mesmas mesas, com a mesma disposição em todas as noites?
O enredo, infelizmente, é insosso. Há um excesso de desperdício de recurso humano. Há momentos com espasmos de graça, com a fala de Mazzeo, azarando a menininha ninfeta de 17 anos na garagem de seu condomínio: "pilastra é um troço traiçoeiro." Talvez esse seja o ápice de sagacidade dos personagens principais.
Por fim, se você quer um (e realmente único) motivo para assistir ao filme, tem nome de artista, cantor, personagem e ator: Seu Jorge. Suas tiradas pontuais, conseguem ser objetivas, elegantes e francas, além do jeito malandro de falar, fazem dele o melhor personagem da trama.
Infelizmente, não há muito mais o que comentar. Talvez se o filme se preocupasse menos em inserir personagens com aparições especiais, como as de José de Abreu, Murilo Benicio e Juliana Alves, dentre outros, provavelmente os personagens principais e secundários teriam mais tempo e densidade para encorpar melhor o filme.
Forte abraço!
;)
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quarta-feira, 1 de maio de 2013
terça-feira, 30 de abril de 2013
Flores do Oriente (no original: "Jin líng shí san chai")
Flores do Oriente, filme chinês, produzido em 2011 e lançado em maio de 2012, tem direção de Zhang Yimou, (que também foi diretor de "Clã das Adagas Voadoras").
Flores do Oriente conta com belíssima e comovente atuação de Christian Bale, na pele do agente funerário John Miller, que chega a China em 1937, no meio da segunda guerra entre China e Japão. O episódio narrado ocorre em Nanquim, província chinesa invadida pelos japoneses durante a guerra.
Um começo extremamente chocante, com o abuso do uso da cor branca para chocar o espectador, compõe a cena inicial que dá boa parte da característica do personagem de Bale: um sujeito desajeitado e indiferente com o mundo ao redor e que preocupa-se apenas consigo mesmo e com sua sobrevivência. Esses traços permanecerão com o personagem até meados do longa, quando um anseio de proteção das meninas e prostitutas alojadas na igreja em que ele ia realizar seu trabalho de agente funerário, tomam conta da sua mente.
O objetivo principal da presença de Bale na igreja é enterrar o sacerdote que ali morrera, e dar-lhe as honrarias finais de um funeral. Entretanto, o filme se desenrola e, seguindo seu instinto de sobrevivência indiferente aos demais ao redor, Bale se torna, de uma hora para outra, padre da igreja local, assumindo, então, o lugar do sacerdote morto, achando que conseguirá desfrutar de certo privilégio como um quarto, à primeira vista do personagem, cheio de recursos e bebidas alcoólicas que possam saciar seus anseios etílicos.
Nesta mesma igreja funciona uma espécie de internato feminino, para crianças e adolescentes meninas. Com a guerra, os pais das garotas certamente morreram em algum canto da China ou então perderam o completo acesso ao internato, impossibilitando-os de qualquer resgate ou fuga do território para algum lugar mais seguro para os chineses. Nesse grupo, nota-se o destaque da pequena Shujuan Meng (Xinyi Zhang), uma das internas, cujo pai tenta, a todo custo, se vender aos japoneses para então conseguir resgatar sua filha daquela situação.
Cabe aqui também ressaltar a grande e ilustre presença do Major Li (Tong Dawei), um dos personagens mais inteligentes que vi em tão pouco tempo de aparição no cinema. Herói nacional na China, pelo episódio que fora narrado de geração em geração na China, o personagem consegue desmantelar todo um destacamento japonês, com armadilhas precisas e movimentação singular, que simulam a presença de uma expressiva quantidade de soldados chineses fazendo resistência contra a invasão chinesa. A inteligência dele reside, principalmente, no fato de saber que sua vida terá prazo finito e sua situação (em função do seu posicionamento na cidade e a provisão com alimentação e munição são finitas) e a partir daí bola um sensacional plano de auto destruição, com o intuito de levar o máximo de japoneses junto consigo em sua morte. Essa cena é de singular beleza e heroísmo, além de uma cativante e comovente interpretação de Dawei, que conseguiu colocar, em poucos quadros, a dor, aflição e angústia nessas situações e, ao mesmo tempo, um pingo de satisfação pelo dever cumprido ao proteger o internato dos japoneses pelo máximo de tempo possível.
Do outro lado da cidade, um grupo de prostitutas, lideradas pela personagem Yu Mo (Ni Ni), que conseguem encontrar abrigo, a muito custo, no internato das meninas, já sob os cuidados bem lenientes do personagem de Bale. É no ambiente da igreja e do internato que o choque de culturas entre as meninas ainda adolescentes, bem instruídas, com as mulheres maduras, prostitutas e de maneiras vulgares, ocorre. O atrito entre elas é o principal em boa parte do meio do filme. Aos poucos, ambos os grupos começam a ceder, mas isso só ocorre quando um destacamento de soldados japoneses descobre que aquele internato é esconderijo de chineses e, principalmente de mulheres.
A mudança no relacionamento entre Miller, as prostitutas e as garotas vão ocorrendo e essa relação vai se tornando menos hostil e cada vez mais de companheirismo. Cena marcante dessa troca ocorre quando o Coronel Hasegawa (Atsurô Watabe) ouve o coro das internas e fica encantado. A fama da presença delas chega ao alto comando japonês que impõe um convite as meninas para que, com o seu coral, vá a um evento japonês para cantar para o "comandante japonês" e alegrar a noite.
Astutas, as prostitutas, com a experiência de terem vivenciado estupros e atrocidades feitos pelos japoneses contra as mulheres chinesas, ficam comovidas com a imposição da presença das meninas em tal cerimônia e se oferecem para ir no lugar delas. Essa troca de papéis, inicialmente, provoca inquietação em todos os componentes de cada grupo, inclusive do já então conclamado padre John Miller. Mas a decisão final é que as prostitutas irão no lugar das garotas, a fim de protegê-las para uma possível fuga no futuro.
A melhor cena é a transformação ocorrida nas prostitutas: o corte de cabelo ousado dá lugar a um corte de cabelo mais recatado, inocente, criança. A sensação que passa ao espectador é que, por um breve momento, antes do final das suas vidas (já que as prostitutas sabem qual será o seu fim), conseguirão revisitar seus próprios passados, dotado com inocência peculiar à infância. Os olhares ficam mais serenos, e uma doçura pré-morte domina o ambiente entre as prostitutas.
Entretanto, a falta de mais uma mulher para compor o número total inicial de crianças no coro, é completado pelo único menino presente no internato, George (Tianyuam Huang), que se submete a uma total transformação de seu físico e rosto, com maquiagens e uma peruca confeccionada na hora, para a caracterização plena do personagem em uma garota. Ato e prova de amor incondicional às meninas que cresceram e zombaram dele na infância. Esse momento do filme é o toque final na idéia de troca de vidas e de amor ao próximo e a uma esperança de futuro melhor para as possíveis meninas sobreviventes.
De fato, Miller arranja uma maneira de fugir com as meninas e as prostitutas e o garoto nunca mais foram vistos.
Por fim, cabe ressaltar aqui a belíssima fotografia do filme Flores do Oriente, com excesso de apelo aos tons acinzentados de cascalhos de guerra com as fortes e contrastantes cores da China, como o vermelho gritante, contrastando, ao fundo, com um altar em tom escuro cinza-marrom. Essa mistura torna o filme ainda mais especial no tocante à sua beleza e concepção. Os ângulos para captar as cenas e os momentos de tensão foram muito bem escolhidos, dando maior drama e densidade ao longa, aumentando a expectativa do espectador. Para quem assistiu Clã das Adagas Voadores, não poderia esperar algo muito diferente: som e cores numa mistura que encantam o espectador ocidental (e quiçá o oriental?) com simplicidade e objetividade.
Mesmo objetivo, o filme consegue conservar suficiente subjetividade e desenvolvê-la durante todas as 2 horas e 24 minutos de filme.
Recomendadíssimo!
Forte abraço!
;)
Flores do Oriente conta com belíssima e comovente atuação de Christian Bale, na pele do agente funerário John Miller, que chega a China em 1937, no meio da segunda guerra entre China e Japão. O episódio narrado ocorre em Nanquim, província chinesa invadida pelos japoneses durante a guerra.
Um começo extremamente chocante, com o abuso do uso da cor branca para chocar o espectador, compõe a cena inicial que dá boa parte da característica do personagem de Bale: um sujeito desajeitado e indiferente com o mundo ao redor e que preocupa-se apenas consigo mesmo e com sua sobrevivência. Esses traços permanecerão com o personagem até meados do longa, quando um anseio de proteção das meninas e prostitutas alojadas na igreja em que ele ia realizar seu trabalho de agente funerário, tomam conta da sua mente.
O objetivo principal da presença de Bale na igreja é enterrar o sacerdote que ali morrera, e dar-lhe as honrarias finais de um funeral. Entretanto, o filme se desenrola e, seguindo seu instinto de sobrevivência indiferente aos demais ao redor, Bale se torna, de uma hora para outra, padre da igreja local, assumindo, então, o lugar do sacerdote morto, achando que conseguirá desfrutar de certo privilégio como um quarto, à primeira vista do personagem, cheio de recursos e bebidas alcoólicas que possam saciar seus anseios etílicos.
Nesta mesma igreja funciona uma espécie de internato feminino, para crianças e adolescentes meninas. Com a guerra, os pais das garotas certamente morreram em algum canto da China ou então perderam o completo acesso ao internato, impossibilitando-os de qualquer resgate ou fuga do território para algum lugar mais seguro para os chineses. Nesse grupo, nota-se o destaque da pequena Shujuan Meng (Xinyi Zhang), uma das internas, cujo pai tenta, a todo custo, se vender aos japoneses para então conseguir resgatar sua filha daquela situação.
Cabe aqui também ressaltar a grande e ilustre presença do Major Li (Tong Dawei), um dos personagens mais inteligentes que vi em tão pouco tempo de aparição no cinema. Herói nacional na China, pelo episódio que fora narrado de geração em geração na China, o personagem consegue desmantelar todo um destacamento japonês, com armadilhas precisas e movimentação singular, que simulam a presença de uma expressiva quantidade de soldados chineses fazendo resistência contra a invasão chinesa. A inteligência dele reside, principalmente, no fato de saber que sua vida terá prazo finito e sua situação (em função do seu posicionamento na cidade e a provisão com alimentação e munição são finitas) e a partir daí bola um sensacional plano de auto destruição, com o intuito de levar o máximo de japoneses junto consigo em sua morte. Essa cena é de singular beleza e heroísmo, além de uma cativante e comovente interpretação de Dawei, que conseguiu colocar, em poucos quadros, a dor, aflição e angústia nessas situações e, ao mesmo tempo, um pingo de satisfação pelo dever cumprido ao proteger o internato dos japoneses pelo máximo de tempo possível.
Do outro lado da cidade, um grupo de prostitutas, lideradas pela personagem Yu Mo (Ni Ni), que conseguem encontrar abrigo, a muito custo, no internato das meninas, já sob os cuidados bem lenientes do personagem de Bale. É no ambiente da igreja e do internato que o choque de culturas entre as meninas ainda adolescentes, bem instruídas, com as mulheres maduras, prostitutas e de maneiras vulgares, ocorre. O atrito entre elas é o principal em boa parte do meio do filme. Aos poucos, ambos os grupos começam a ceder, mas isso só ocorre quando um destacamento de soldados japoneses descobre que aquele internato é esconderijo de chineses e, principalmente de mulheres.
A mudança no relacionamento entre Miller, as prostitutas e as garotas vão ocorrendo e essa relação vai se tornando menos hostil e cada vez mais de companheirismo. Cena marcante dessa troca ocorre quando o Coronel Hasegawa (Atsurô Watabe) ouve o coro das internas e fica encantado. A fama da presença delas chega ao alto comando japonês que impõe um convite as meninas para que, com o seu coral, vá a um evento japonês para cantar para o "comandante japonês" e alegrar a noite.
Astutas, as prostitutas, com a experiência de terem vivenciado estupros e atrocidades feitos pelos japoneses contra as mulheres chinesas, ficam comovidas com a imposição da presença das meninas em tal cerimônia e se oferecem para ir no lugar delas. Essa troca de papéis, inicialmente, provoca inquietação em todos os componentes de cada grupo, inclusive do já então conclamado padre John Miller. Mas a decisão final é que as prostitutas irão no lugar das garotas, a fim de protegê-las para uma possível fuga no futuro.
A melhor cena é a transformação ocorrida nas prostitutas: o corte de cabelo ousado dá lugar a um corte de cabelo mais recatado, inocente, criança. A sensação que passa ao espectador é que, por um breve momento, antes do final das suas vidas (já que as prostitutas sabem qual será o seu fim), conseguirão revisitar seus próprios passados, dotado com inocência peculiar à infância. Os olhares ficam mais serenos, e uma doçura pré-morte domina o ambiente entre as prostitutas.
Entretanto, a falta de mais uma mulher para compor o número total inicial de crianças no coro, é completado pelo único menino presente no internato, George (Tianyuam Huang), que se submete a uma total transformação de seu físico e rosto, com maquiagens e uma peruca confeccionada na hora, para a caracterização plena do personagem em uma garota. Ato e prova de amor incondicional às meninas que cresceram e zombaram dele na infância. Esse momento do filme é o toque final na idéia de troca de vidas e de amor ao próximo e a uma esperança de futuro melhor para as possíveis meninas sobreviventes.
De fato, Miller arranja uma maneira de fugir com as meninas e as prostitutas e o garoto nunca mais foram vistos.
Por fim, cabe ressaltar aqui a belíssima fotografia do filme Flores do Oriente, com excesso de apelo aos tons acinzentados de cascalhos de guerra com as fortes e contrastantes cores da China, como o vermelho gritante, contrastando, ao fundo, com um altar em tom escuro cinza-marrom. Essa mistura torna o filme ainda mais especial no tocante à sua beleza e concepção. Os ângulos para captar as cenas e os momentos de tensão foram muito bem escolhidos, dando maior drama e densidade ao longa, aumentando a expectativa do espectador. Para quem assistiu Clã das Adagas Voadores, não poderia esperar algo muito diferente: som e cores numa mistura que encantam o espectador ocidental (e quiçá o oriental?) com simplicidade e objetividade.
Mesmo objetivo, o filme consegue conservar suficiente subjetividade e desenvolvê-la durante todas as 2 horas e 24 minutos de filme.
Recomendadíssimo!
Forte abraço!
;)
Bruna Surfistinha
Assisti esses dias o filme "Bruna Surfistinha" (2011). Confesso que não me senti incentivado a ir ao cinema e pagar para assistí-lo, já que ouvia de algumas pessoas (de certa confiança) que o filme não era bom e não valeria a pena gastar dinheiro para ver a Deborah Secco pelada.Em casa, de graça, na tv a cabo, resolvi assistir. Nada tinha para fazer e comecei assistindo o filme.
Inicialmente, os atores não são lá essas coisas. Exceto a Deborah Secco que consegue conservar uma bagagem de "Confissões de Adolescente" (série para o público adolescente, de 1994) e que envolve o espectador para continuar a assistir o filme. Logo de início, quando damos de cara com Drica Moraes interpretando a cafetina de putas de baixo nível em SP, o nível do filme automaticamente sobe.
Um parênteses à parte: Drica Moraes é uma atriz tão excepcional que ao mesmo tempo em que a assisti na novela Guerra dos Sexos no dia anterior e no filme Bruna Surfistinha no dia seguinte, nota-se a capacidade e versatilidade dessa atriz que deveria ser considerada patrimônio cultural nacional, tal qual Marília Pêra e Fernanda Montenegro.
Voltando ao filme. Apesar da proposta do filme ser uma autobiografia de Bruna Surfistinha (ou Raquel Pacheco, nome real da personagem principal), acho que ele consegue ir um pouco além: expõe a situação precária da prostituição em grandes cidades e, com certa discrição, a diferença entre os mercados de baixo e alto nível da prostituição nas grandes metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro. E também a possibilidade de ganhos maiores em mercados de mais alto nível.
Um ponto bastante interessante é que Deborah Secco vai conseguindo mudar e construir a imagem de Bruna conforme o tempo passa (e, tecnicamente, a idade da personagem) vai aumentando. O jeito ainda moleque e ao mesmo tempo provocante de Deborah fez dela a atriz ideal para o papel, fora o fato de não haver muito problema com nudez e nem poses sexuais, das mais diversas.
Infelizmente o filme não tem uma trilha sonora e nem uma química que você possa dizer: "nossa, essa música coincide com o personagem ou a cena!!" e nem uma fotografia que você possa apreciar melhor o jogo de luzes e ângulos.
O que eu acho muito interessante e marcante no filme, é a narração e a colocação de que a vida da prostituição é intensa, curta e marcada. A própria colocação da personagem ao final do filme, questionando a existência do alter-ego (?), Bruna Surfistinha poderia não ter existido. Nesse momento acho que o filme consegue provocar (ainda que modestamente) o espectador para uma reflexão do caminho adotado por cada um de nós (secundariamente) e a formação e conclusão final de Bruna (ou Raquel) afirmando que para que ela se encontrasse na vida e encontrasse seu espaço-tempo, a existência e criação de Bruna fez-se necessária. Outro ponto que é legal de perceber, entretanto, o filme não deixa isso muito evidente e deixa a cargo do espectador, é: assim que ela começa a cheirar cocaína ao trabalhar para um mercado de mais alto nível (até então ela recusava, mesmo no meretrício de mais baixo nível), a personagem de Deborah começa uma lenta e logo em seguida rápida e derradeira decadência. Fica a dúvida: Bruna acorda para uma nova realidade porque Gabi saiu de sua vida e, conseqüentemente, o alicerce administrativo e laço de amizade são perdidos; ou pelo simples fato dela ter começado a cheirar pó? Ou até mesmo os dois?
No mais, como todo filme, principalmente os brasileiros, daqui a alguns anos ele servirá como um belo retrato de uma realidade que talvez não estejamos mais vivenciando-a, com a alteração da paisagem urbana ou alguma outra mudança louca que venha ocorrer nas nossas vidas e cidades.
Se você não gostou do filme, e achou que foi só mais um filmezinho pipoca, bom, não tenho muito como contra-argumentar, até porque reconheço que o filme não é lá essas coisas. Mas que é um bom retrato da prostituição, acho que nesse ponto ele é bem interessante (e romântico até).
Se ainda sim você não gostou do filme, que este longa conte como um registro de um tempo que passou (meados dos anos 2000) e a nossa sociedade retratada, ainda que de forma bem pincelada e longínqua.
Forte abraço!
;)
O Substituto (ou "Detachment", no original)
Assisti o filme "O Substituto", de 2011, com direção geral e fotografia de Tony Kaye, e Adrien Brody como protagonista.Como só consegui assistir na versão dublada, acredito que alguns detalhes do filme podem ter sido suprimidos por essa falha da minha rede de tv a cabo.
Inicialmente, o filme começa com uma narrativa do personagem principal, que é Henry Barthes (Adrien Brody) e você não tem muita noção do que ocorre. Pode parecer um pouco enfadonho nos primeiros 2 minutos, mas no terceiro você já se surpreende com a densidade do personagem principal e os flashs de lembranças que ele tem da infância e de sua mãe.
O que é evidentemente marcante nesse filme é a construção de um personagem denso com os flashs sobre a lembrança da morte da mãe e as circunstâncias em que ele, ainda criança, a encontrou morta. Apesar de não saber dos motivos da morte da mãe - talvez por uma opção - um outro personagem fortíssimo aparece em cena: seu avô e, provavelmente, o grande algoz de sua mãe.
Como pano de fundo fica o tema do suicídio entre as pessoas, independentemente da faixa etária do indivíduo. Esse fantasma do suicídio permeia toda o desenrolar da trama e cria uma expectativa no espectador do que pode acontecer durante o filme.
Com as ilustrações "dinâmicas" entre uma cena e outra, o filme consegue passar um lado bem mais subjetivo do que ele passa, além de contornar melhor as cenas e os personagens nelas presentes, além do protagonista. O personagem principal está eternamente preso num passado que nunca se defez em sua cabeça: talvez por falta de informação do que ocorrera com a mãe, ou até mesmo pela vaga suspeita do que provocou o seu suicídio e ao mesmo tempo, a necessidade de recalcar o real motivo, que tem forte ligação com o avô (e pai da mãe do personagem).
Esse limite/prisão/autocensura que o personagem vive acaba passando para os seus alunos, quando vai substituir um professor de Literatura em alguma escola qualquer de bairro nos Estados Unidos. Nesse espaço físico do filme (a escola) parece que todos os personagens compartilham uma angústia comum entre eles: o fracasso eminente em não conseguir transformar os alunos (crianças e adolescentes) em alguém no futuro. Isso talvez ajude a remeter, ainda que eu não ache que esse seja o objetivo do filme, sobre o aspecto "industrial" do ensino, em que colocam-se inúmeros alunos em uma sala de aula, com níveis e qualidades intelectuais diferentes, e um professor para "industrializar", de forma bastante fordista, o ensino. Isso não ocorre só nos EUA, mas em todo o mundo praticamente. Perdão pela digressão, mas educação é um tema que me encanta e acabo pensando/falando demais a respeito.
Voltando ao filme.
Além da descrição acima do enredo, cabe salientar a interpretação excelente do personagem principal (Adrien Brody), das músicas selecionadas (poucas, mas pontuais) e da fotografia do filme. As cores, ora extremamente contrastantes com uma luz superforte em cima do personagem principal e a adolescente prostituta no meio do filme, ora os tons acinzentados e amarronzados do apartamento do personagem de Adrien Brody, dão o toque final de refino a esse filme que, em poucos minutos, conseguiu ser tão denso e subjetivo, como há muito não assistia.
Excelente filme! Recomendadíssimo!
Forte abraço!
;)
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