terça-feira, 30 de abril de 2013

Flores do Oriente (no original: "Jin líng shí san chai")

Flores do Oriente, filme chinês, produzido em 2011 e lançado em maio de 2012, tem direção de Zhang Yimou, (que também foi diretor de "Clã das Adagas Voadoras").

Flores do Oriente conta com belíssima e comovente atuação de Christian Bale, na pele do agente funerário John Miller, que chega a China em 1937, no meio da segunda guerra entre China e Japão. O episódio narrado ocorre em Nanquim, província chinesa invadida pelos japoneses durante a guerra.

Um começo extremamente chocante, com o abuso do uso da cor branca para chocar o espectador, compõe a cena inicial que dá boa parte da característica do personagem de Bale: um sujeito desajeitado e indiferente com o mundo ao redor e que preocupa-se apenas consigo mesmo e com sua sobrevivência. Esses traços permanecerão com o personagem até meados do longa, quando um anseio de proteção das meninas e prostitutas alojadas na igreja em que ele ia realizar seu trabalho de agente funerário, tomam conta da sua mente.

O objetivo principal da presença de Bale na igreja é enterrar o sacerdote que ali morrera, e dar-lhe as honrarias finais de um funeral. Entretanto, o filme se desenrola e, seguindo seu instinto de sobrevivência indiferente aos demais ao redor, Bale se torna, de uma hora para outra, padre da igreja local, assumindo, então, o lugar do sacerdote morto, achando que conseguirá desfrutar de certo privilégio como um quarto, à primeira vista do personagem, cheio de recursos e bebidas alcoólicas que possam saciar seus anseios etílicos.

Nesta mesma igreja funciona uma espécie de internato feminino, para crianças e adolescentes meninas. Com a guerra, os pais das garotas certamente morreram em algum canto da China ou então perderam o completo acesso ao internato, impossibilitando-os de qualquer resgate ou fuga do território para algum lugar mais seguro para os chineses. Nesse grupo, nota-se o destaque da pequena Shujuan Meng (Xinyi Zhang), uma das internas, cujo pai tenta, a todo custo, se vender aos japoneses para então conseguir resgatar sua filha daquela situação.

Cabe aqui também ressaltar a grande e ilustre presença do Major Li (Tong Dawei), um dos personagens mais inteligentes que vi em tão pouco tempo de aparição no cinema. Herói nacional na China, pelo episódio que fora narrado de geração em geração na China, o personagem consegue desmantelar todo um destacamento japonês, com armadilhas precisas e movimentação singular, que simulam a presença de uma expressiva quantidade de soldados chineses fazendo resistência contra a invasão chinesa. A inteligência dele reside, principalmente, no fato de saber que sua vida terá prazo finito e sua situação (em função do seu posicionamento na cidade e a provisão com alimentação e munição são finitas) e a partir daí bola um sensacional plano de auto destruição, com o intuito de levar o máximo de japoneses junto consigo em sua morte. Essa cena é de singular beleza e heroísmo, além de uma cativante e comovente interpretação de Dawei, que conseguiu colocar, em poucos quadros, a dor, aflição e angústia nessas situações e, ao mesmo tempo, um pingo de satisfação pelo dever cumprido ao proteger o internato dos japoneses pelo máximo de tempo possível.

Do outro lado da cidade, um grupo de prostitutas, lideradas pela personagem Yu Mo (Ni Ni), que conseguem encontrar abrigo, a muito custo, no internato das meninas, já sob os cuidados bem lenientes do personagem de Bale. É no ambiente da igreja e do internato que o choque de culturas entre as meninas ainda adolescentes, bem instruídas, com as mulheres maduras, prostitutas e de maneiras vulgares, ocorre. O atrito entre elas é o principal em boa parte do meio do filme. Aos poucos, ambos os grupos começam a ceder, mas isso só ocorre quando um destacamento de soldados japoneses descobre que aquele internato é esconderijo de chineses e, principalmente de mulheres.

A mudança no relacionamento entre Miller, as prostitutas e as garotas vão ocorrendo e essa relação vai se tornando menos hostil e cada vez mais de companheirismo. Cena marcante dessa troca ocorre quando o Coronel Hasegawa (Atsurô Watabe) ouve o coro das internas e fica encantado. A fama da presença delas chega ao alto comando japonês que impõe um convite as meninas para que, com o seu coral, vá a um evento japonês para cantar para o "comandante japonês" e alegrar a noite.

Astutas, as prostitutas, com a experiência de terem vivenciado estupros e atrocidades feitos pelos japoneses contra as mulheres chinesas, ficam comovidas com a imposição da presença das meninas em tal cerimônia e se oferecem para ir no lugar delas. Essa troca de papéis, inicialmente, provoca inquietação em todos os componentes de cada grupo, inclusive do já então conclamado padre John Miller. Mas a decisão final é que as prostitutas irão no lugar das garotas, a fim de protegê-las para uma possível fuga no futuro.

A melhor cena é a transformação ocorrida nas prostitutas: o corte de cabelo ousado dá lugar a um corte de cabelo mais recatado, inocente, criança. A sensação que passa ao espectador é que, por um breve momento, antes do final das suas vidas (já que as prostitutas sabem qual será o seu fim), conseguirão revisitar seus próprios passados, dotado com inocência peculiar à infância. Os olhares ficam mais serenos, e uma doçura pré-morte domina o ambiente entre as prostitutas.
Entretanto, a falta de mais uma mulher para compor o número total inicial de crianças no coro, é completado pelo único menino presente no internato, George (Tianyuam Huang), que se submete a uma total transformação de seu físico e rosto, com maquiagens e uma peruca confeccionada na hora, para a caracterização plena do personagem em uma garota. Ato e prova de amor incondicional às meninas que cresceram e zombaram dele na infância. Esse momento do filme é o toque final na idéia de troca de vidas e de amor ao próximo e a uma esperança de futuro melhor para as possíveis meninas sobreviventes.

De fato, Miller arranja uma maneira de fugir com as meninas e as prostitutas e o garoto nunca mais foram vistos.


Por fim, cabe ressaltar aqui a belíssima fotografia do filme Flores do Oriente, com excesso de apelo aos tons acinzentados de cascalhos de guerra com as fortes e contrastantes cores da China, como o vermelho gritante, contrastando, ao fundo, com um altar em tom escuro cinza-marrom. Essa mistura torna o filme ainda mais especial no tocante à sua beleza e concepção. Os ângulos para captar as cenas e os momentos de tensão foram muito bem escolhidos, dando maior drama e densidade ao longa, aumentando a expectativa do espectador. Para quem assistiu Clã das Adagas Voadores, não poderia esperar algo muito diferente: som e cores numa mistura que encantam o espectador ocidental (e quiçá o oriental?) com simplicidade e objetividade.

Mesmo objetivo, o filme consegue conservar suficiente subjetividade e desenvolvê-la durante todas as 2 horas e 24 minutos de filme.

Recomendadíssimo!

Forte abraço!
;)

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