quarta-feira, 1 de maio de 2013

A Dama de Ferro ("The Iron Lady", no original)

A Dama de Ferro, filme britânico lançado em 30 de dezembro de 2011 e disponível na Inglaterra em 6 de janeiro de 2012, tem direção de Phyllida Loyd e a premiadíssima interpretação de Meryl Streep no papel de Margaret Thatcher.

O filme levou 2 estatuetas do Óscar, em 2012: Melhor Atriz, para Meryl Streep; Melhor Maquiagem, sob direção de Marese Langan. Outros prêmios foram carregados também por Streep: melhor atriz no Globo de Ouro 2012, BAFTA 2012 e uma indicação (mas não fora vitoriosa) no Screen Actors Guild 2012. Não é para menos, pois Maryl Streep, como sempre fez em suas outras personagens, incorpora de tal forma que a atriz some no papel e o personagem consegue ser de tal sorte ser tão bem encenado, que, por vezes, consegue despertar uma inquietação singular no espectador, como o visto em "O Diabo Veste Prada", ao interpretar Miranda Priestly.

Os britânicos inicialmente não estavam confortável com a escolha de uma americana para atuar em papel tão importante, mesmo que controverso, como o de Margaret Thatcher. Mas deixando essa questão cultural interna à Inglaterra, continuemos o comentário sobre o filme.

Por mais bizarro que possa parecer, a alcunha de Dama de Ferro foi dada pela mídia da então União Soviética, em 1976, por sua forte oposição e luta contra o comunismo. Não sei, mas acho que os russos (particularmente os "soviéticos) têm alguma atração pela dureza e grandeza, exposta em ferros e aços: Stálin nada mais é do que "Homem de Ferro" em russo. Não por menos, Dama de Ferro seria uma longínqua comparação com o famoso e controverso líder soviético pós-Lênin.

Um rápido apanhado cronológico: Thatcher se torna líder do Partido Conservador em 1975 e nessa posição continuará até 1990. Em 1979, consegue ser eleita pelo Parlamento como a Primeira Ministra. Até 1990, Thatcher introduziu reformas econômicas e institucionais que mudariam para sempre, não só a cara da Inglaterra, como o comportamento econômico ao redor de todo o mundo.

Agora, voltemos ao filme.
O enredo do filme já é instigante por natureza. Aos mais velhos, que viveram os anos da Dama de Ferro, provavelmente assistirão com curiosidade e um mix de repulsa e admiração. Essa mulher mudou o modo que até então o mundo vivia e acreditava viver, seguindo ainda os anos dourados do Welfare State (os anos pós guerra, 50 e 60). Para eles, a crença num Estado altamente protetor e paternalista é quebrada e mudada, forçadamente, com a ascensão de Thatcher ao poder, o que pode explicar boa parte do ódio e uma visão um tanto opaca dos benefícios trazidos pela idéia do neoliberalismo (alcunha dada pelos jornalistas a um modo de pensar econômico diferente do presente até então). Do outro lado, para os mais novos, que não vivenciaram esta época, fica a curiosidade em entender a fama e a presença desse nome até os dias de hoje, e tentar perceber qual é o motivo de tamanha repulsa dos mais velhos a essa personalidade que virou o pensamento político-econômico vigente de cabeça para baixo.

Paralelamente a história real vivida por todos nós ao redor do mundo, o filme narra, com bastante detalhes, a vida pessoal e familiar de Thatcher, desde sua infância, sua visão, estudos, introdução na política, a crença na mudança da mentalidade machista, a chegada ao parlamento, reformas como ministra da educação e, finalmente, o cargo de Primeira Ministra. Não sei se totalmente verdadeiros, mas independentemente de fidedignos ou não, constroem um personagem com a riqueza de detalhes e densidade suficiente para que o filme e personagem principal tenham vida própria. Cabe aqui ressaltar euforia vivida encenada por Meryl Streep, com a simbólica cena dela entrando no número 10 da Downing Street, residência oficial do Primeiro Ministro Britânico.

A readaptação de Thatcher e seu constante polimento como política durante sua ascensão até ter notoriedade pública são fascinantes. As aulas de fonoaudiologia, a mudança da fisionomia, as novas roupas e uma maneira diferente de se comportar, tornam-na uma pessoa completamente diferente da mulher interiorana do subúrbio inglês e fazem dela o baluarte do recato, cordialidade - e frieza - britânicas.

Para os mais observadores e apreciadores de um passado nostálgico, atenção especial às mudanças que vão ocorrendo, naturalmente, com os carros que deixam de ser os antigos, bem retrôs e vão sendo inseridos carros mais modernos durante o filme. Além disso, o figurino vai sofrente pequenas alterações até os anos atuais, quando o filme se passa, e o momento em que Thatcher começa a sofrer de esquecimentos e a perda da noção do tempo e do espaço ao seu redor.

Divagações sobre o então marido (já falecido) e sobre a infância de seus filhos (que ela não conseguiu viver bem, em função da busca constante pelo poder e pela ascensão), dão o pano de fundo para a construção de um lado sentimental e muito mais íntimo com a ex-premiê. Tal colocação do filme gerou inquietações dos familiares de Margaret, que se irritaram com a riqueza de detalhes e da escancaração da sua vida pessoal a todo o mundo.

Ao assumir o governo, em 1979, os problemas econômicos da Inglaterra eram muitos, mas basicamente inflação, desemprego e baixo crescimento industrial.
O que pode ajudar a explicar o ódio extremado dos mais velhos pela então Dama de Ferro, foi o fato dela ter acabado com os privilégios estatais aos mais diversos setores da economia. Subsídios, tarifas protecionistas e outros benefícios foram abolidos em seu governo. A economia britânica ficou literalmente exposta ao mercado e ficou evidente que o modo de produção (no mais amplo sentido) inglês não era suficientemente eficiente para concorrer com outros países que estavam à frente da Inglaterra em termos de produtividade, como os EUA ou até mesmo o ascendente Japão. Nesse aspecto, a pancada promovida por Thatcher na organização econômica, obrigou que muitos setores tornassem-se mais eficientes, através das demissões e melhorias nas plantas produtivas. Em função das demissões em massa para tornar a economia mais eficiente, vários sindicatos e trabalhadores foram prejudicados, além de redução em salários, já que viviam, até então (herança do Welfare State, citado no início do post), tendo uma vida razoavelmente protegida e sem preocupação, pois havia muitas garantias, inclusive as patrocinadas pelo Estado. Entretanto, com o fim das riquezas e a exaustão da economia, tais benefícios não poderiam mais ser sustentados.
Seguindo esse raciocínio, as reformas introduzidas por Thatcher causaram muita discórdia na população. O seu custo político inicial foi extremamente alto, incitando revoltas e piquetes contra o governo. Nesse aspecto, o filme consegue retratar com maestral capacidade a revolta da população. Uma cena inquietante ocorre quando alguma espécie de comida, acho que ovo, é atirado contra a janela do carro de Margaret. Apesar de ter acertado somente o vidro e esparramado, o tapa na cara da Primeira Ministra ficou registrado com uma bela e tocante imagem. Em tempo, um outro filme que narra bem o drama da classe operária, com conseqüências para a população de mais baixa renda, é Billy Elliot (2000), que apesar de não situar o espaço-tempo em que ele se passa, fica evidente que está inserido no contexto da Era Thatcher.

Enfim, Thatcher promove privatizações e remoção dos subsídios aos setores da economia, tal qual ocorreu no Brasil nos idos dos anos 90, iniciando-se com Fernando Collor, tendo grande ênfase no governo Fernando Henrique Cardoso e continuando no período Lula - ao contrário do que muitos acham.
Essa herança e resquício da Era Thatcher resvalou imensa e intensamente no Brasil.
Da mesma maneira como ocorreu aqui (tempos depois, óbvio), na Inglaterra houve um susto inicial muito grande com as privatizações. Porém, com o passar do tempo e uma constante e gradual melhora dos indicadores econômicos, a população se conscientizou que privatizar não é tão ruim quanto parece. O debate sobre privatização dá pano para manga, que foge ao escopo deste post.

Infelizmente, o filme não narra com detalhes muito ricos a Guerra das Malvinas (ou Falklands War), ocorrida entre 2 de abril e 14 de junho de 1982. Da mesma maneira que Thatcher enfrentava problemas internos no início do seu governo, com revoltas e piquetes, a ditadura argentina também enfrentava questionamentos e problemas internos em sua política. Qual foi a saída encontrada pelos argentinos para unir a nação em prol de um objetivo externo e relegar a situação interna ao segundo plano? Iniciar uma guerra! E as Malvinas foram o local e motivo escolhido para os argentinos esquematizarem uma guerra com um objetivo que transcendesse os problemas internos: a soberania nacional estava ameaçada.

Enfim, a Argentina enviou contingente suficiente de jovens às ilhas, que, infelizmente, perderam suas vidas sob fulminante ataque britânico. À noite, soldados ingleses utilizavam óculos de visão noturna, tecnologia até então desconhecida pelos argentinos. A batalha marítima se deu de forma totalmente desproporcional: a Argentina possuía um submarino 'convencional'; já a Inglaterra enviou 3 submarinos de propulsão nuclear. A partir daí, tire suas próprias conclusões. A única cena narrada desse episódio no filme ocorre quando o navio de maior importância política e militar argentina, o General Belgrano, encontra-se em posição para ser abatido pela frota britânica. Com um sonoro "sink it" (afunde-o, em inglês), Thatcher acaba com o mal estar provocado pela guerra - e com as vidas da tripulação argentina no navio em questão.

Resultado: Inglaterra vitoriosa e os louros e dividendos de uma vitória de guerra recaem sobre Margaret, inflando sua popularidade e poder sobre os ingleses; do outro lado, a derrota argentina coloca em maus lençóis a ditadura militar argentina. Não por coincidência, o fim da ditadura se deu em 1983, na Argentina.

De longe, EUA e União Soviética tinham olhares divergentes: enquanto os americanos estavam encurralados em um tratado de paz na América (TIAR), incluindo a Argentina, eram também signatários da OTAN, tratado do Altântico Norte com países como a Inglaterra; assim, os americanos deveriam escolher um lado ou outro, quebrando um dos dois acordos em função de sua escolha sobre qual lado defender. Independentemente da escolha, para os soviéticos, qualquer escolha feita pelos EUA seria desastroso no âmbito da politica internacional americana, o que de fato ocorrera: os americanos ficaram com o "filme queimado" na América como um todo. Entretanto, o desfecho da Guerra Fria é fato histórico já. Para maiores informações sobre a Guerra das Malvinas, ler artigo da Wikipedia, com vasto acervo de informações e documentos.

Com o passar do filme e o crescente e constante desgaste da figura política de Thatcher dentro da própria Inglaterra, o filme consegue narrar esse feito com bastante precisão. O "timing" da Primeira Ministra já não é o mesmo e o desejo pelo poder ofusca sua visão e a faz ignorar seus assessores e aliados políticos. Já sem aliados e alicerces para se sustentar na política, Thatcher renuncia ao cargo de Primeira Ministra, evitando maior desgaste político. Mas isso tudo não pode ocorrer ANTES que ela mesma seja uma das protagonistas, junto com Ronald Reagan, do enterro e fim da União Soviética, com a queda do muro de Berlin em 1989, sendo ela a única Chefe de Governo mulher presente no encontro dos países contrários a União Soviética (clássica foto colocada também no filme). Para uma análise mais aprofundada dos últimos meses da derrocada soviética, ler "1989: o ano que mudou o mundo", de Michael Meyer.

Por fim, é importante enfatizar que assistir o filme "Dama de Ferro" sem uma boa base histórica e uma pincelada de idéias econômicas, fica difícil compreender com mais sabor e precisão o enredo. Não sei se por limitação de tempo ou alguma questão de roteiro, o filme deixa a desejar em maiores explicações sobre as atitudes e propostas de Thatcher.

No mais, filme recomendadíssimo, principalmente por ter um leve teor documental ao redor dele!

Forte abraço!
;)

Um comentário:

  1. com tantas informações, creio que devar ver o filme novamente com outros olhares...

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