V de Vingança, dirigido por James McTeigue e produzido no ano de 2006, tem como protagonistas Natalie Portman e Hugo Weaving, na pele do personagem V. Outros atores e personagens compõe essa grandiosa obra do cinema de meados dos anos 2000, como Stephen Rea na pele do detetive Finch e John Jurt como o Alto Chanceler Adam Sutler.
Filme que se passa em Londres, capital inglesa, e, como pano de fundo, paralelos são feitos com o então decadente EUA, que por algum motivo não citado no filme (mas provavelmente, no original em quadrinhos tenha maior explicação), está em situação deplorável. Chegam a dizer que os americanos estão passando por um caos político interno tremendo, mas novamente, sem muita explicação no filme. Se você não leu os quadrinhos, apenas aceite esse fato. Não mudará em nada a sua interpretação.
A opção (dos produtores) pela distância do filme em relação à sua origem nos quadrinhos, fez com que Alan Moore - criador da série em quadrinhos, junto com David Lloyd - se distanciasse da produção cinematográfica e tomasse certa repulsa pela obra de dirigida por McTeigue.
Problemas de origem à parte, vamos ao filme. É importante notar que há um intenso diálogo do longa com o livro "1984", de George Orwell, em que há sempre alguém ou alguma câmera vigiando a pessoa ou qualquer atitude indevida. A sensação do "Big Brother" estar observando você (Big Brother is watching you) está constantemente presente no filme. A frase-lema do filme "Força através da União / União através da Fé" (Strength through Unity / Unity through Faith) faz alusão direta à colocação de Orwell, sobre o lema do partido totalitário de 1984: "Guerra é Paz / Liberdade é Escravidão / Ignorância é Força". Para o leitor mais assíduo, essa colocação fará bastante sentido para entender alguns conceitos de regimes totalitários e dá mais sabor para assistir o filme V de Vingança.
Além de um enredo extremamente cativante, com a escolha de excelentes atores (mesmo com o sotaque britânico forçado de Natalie Portman, que não chega a estragar sua personagem), o filme conta com especial toque de refino na escolha da trilha sonora. A cereja, o estado da arte neste filme, está na utilização da música "Abertura 1812", de Thaicovsky ('1812 Overture', para quem quiser procurar no youtube). Note que a primeira cena em que o personagem V aparece, tem a música tocando, com a destruição do tradicional prédio (Old Bailey) da capital inglesa. E é nessa cena que o deboche do filme com relação ao regime totalitário do Alto Chanceler Adam Sutler toma forma e personalidade: V de Vingança nasce como um indigente (no filme, não sei nos quadrinhos), sedento por vingança e por colocar um basta em todo o funcionamento político da Inglaterra, que fizeram com que todos os cidadãos abrissem mão de sua liberdade, em prol de uma "segurança nacional".
Para completar esse primoroso toque de sensibilidade e sagacidade, a última cena em que V aparece, culmina também com a execução da mesma música, MAS, desta vez, indo até o final, com as 16 salvas de tiros de canhão da música. Ao mesmo tempo, aproveitando o som dos canhões, na mesma cena, o Parlamento da Inglaterra explode, orquestradamente junto com o desenvolver (e o 'crescendo') da música. É extramente encantadora a última cena, com o perfeito fechamento do enredo, dos personagens e a conclusão da música. O espectador certamente fica estupefato com tamanha "alegoria" no cinema, comparada a eventos tal qual a queima de fogos nas viradas de ano, na praia de Copacabana. Eu diria, que é até melhor!
Uma rápida derrapada histórico-musical para entender a escolha da música para o filme. Composta por Tchaikovsky ao final do século XIX, a canção mistura trechos do hino francês (La Marseilaise) com partes do hino russo czarista (Deus salve o Czar), seguido pela clássica salva de tiros de canhões. A música "Abertura 1812" simboliza a desastrosa invasão do exército de Napoleão Bonaparte, em 1812, na Rússia. Apesar dos franceses terem vencido a primeira batalha, conhecida como Batalha de Borodin, a campanha napoleônica dali em diante fora desastrosa: o frio russo jamais experimentado pelos franceses, reduzindo o exército francês de 600mil para apenas 40mil homens, acabando com qualquer chance para Bonaparte. Ironicamente, 129 anos depois, a Operação Barbarossa, de Hitler, em 1941, segue quase o mesmo caminho. Novamente, o inverno russo é o algoz do alemão, beneficiando a Rússia; todo o resto é história. Voltando à música, seu final conta com salva de 16 tiros de canhão, simbolizando a derrocada e expulsão dos franceses do território russo. Ao ouvir a música (que tem duração aproximada de 15 a 20 minutos), fica bem mais evidente a intenção do compositor Tchaikovsky e a sensação causada no ouvinte.
Voltando ao filme, todo o desenvolvimento do personagem V e sua densidade, tem como objetivo final repelir as agruras do regime totalitário instaurado na Inglaterra e tentar lutar por uma situação de maior liberdade. Analogamente a música de Tchaikovsky, seria o mesmo que libertar a Rússia da invasão francesa, como aconteceu de fato na história real, e também ocorre no filme, na última cena já narrada acima.
Por fim, fica extremamente difícil comentar um filme de tamanha densidade e, talvez, eternamente atual. Todo o resto dos quesitos do filme são impecáveis. Ter este filme em casa não é perda de dinheiro e nem espaço, mas um eterno e constante ganho de cultura e a apreciação do sabor da sétima arte.
Recomendadíssimo!
Forte abraço!
;)

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